Livros — por Vilém Flusser

Transcrição do ensaio disponível no site FlusserBrasil

Vilém Flusser lecionando

Estar em sua biblioteca e contemplar as paredes recobertas de livros (não procurando determinado livro, mas contemplando), é como olhar um lago calmo e bem conhecido nosso, mas o qual esconde, não obstante, perigos ignorados. É sensação boa, porque transmite segurança à beira do perigo. É por isto que a biblioteca é, de todos os quartos da casa, o que dá mais abrigo. Lá está-se inteiramente só, e inteiramente cercado por outros não obstante. Inteiramente só, porque protegido pelas costas dos livros dos ruídos e das visões do mundo. E completamente cercado por outros, porque os livros podem ser facilmente virados e podem ser desfraldados em solicitações inumeráveis. Tal situação é o melhor dos abrigos; é situação de provocações provocáveis. Na qual estou cercado de coisas mudas, inofensivas e obedientes, as quais, se e quando viradas, passam a ser convites à aventura, mas quando deixadas em paz são decoração de parede. É paraíso, ou é inferno, estar cercado de coisas deliberadamente transformáveis em outros? Pode-se tentar analisar essa curiosa presença chamada “livro”, a fim de compreender seu clima. Mas nunca virá resposta à pergunta: “que é um livro?”.

A análise existencial distingue entre coisa e outro. Coisa é fenômeno lá no mundo que encontro no meu caminho rumo ao futuro, (à morte), e que resiste a meu avanço, obstruindo assim a visão da minha morte. A soma das coisas é o mundo “objetivo”. Ao encontrar a coisa, posso estender minha mão, apreendê-la, compreendê-la e manipulá-la. Posso eliminá-la do meu caminho, ultrapassá-la. Meu caminho rumo à morte é marcado por coisas manipuladas e ultrapassadas. Tais coisas resolvidas são meu passado; deixaram de ser problemas. E as coisas que me cercam e que ainda não encontrei são meu futuro. Estas são meus problemas. E por trás delas está minha morte, horizonte de todas as coisas sem ser, ela própria, coisa. Não sendo coisa, não é problema. Mas há outro tipo de fenômeno lá no mundo. Fenômeno que, quando encontrado, não pode ser manipulado, ultrapassado e resolvido. Quando quero estender-lhe a mão a fim de compreendê-lo, não posso fazê-lo. Porque não resiste a meu avanço; avança comigo. Porque ele próprio me estende a mão, e são as mãos que se encontram em tal tipo de encontro. Não posso compreender tal tipo de fenômeno, (se “compreender” é manipular). Não posso, porque me reconheço nele: é meu outro.

Tal análise mostra que a maior parte da gente que encontro não é meu outro. Tal gente está no meu caminho, e devo compreendê-la e manipulá-la. É meu problema. E há ciências, (as “antropológicas”), que me ajudam a resolver tal problema. Graças a elas posso compreender e manipular gente, afastá-la do meu caminho, e avançar livremente rumo à morte. Muito pouca gente que encontro são meus outros. Daí ser o mandamento “ame a humanidade” inteiramente diferente do mandamento “amem-se uns aos outros”. Mas há outros que encontro e não são gente. Posso ter o choque do encontro com o outro num fenômeno chamado “livro”. Num fenômeno, portanto, que manipulo? Como é isto possível? Acaso não defini coisa como fenômeno manipulável, e outro como fenômeno não manipulável? Não obstante, o choque de ter encontrado uma presença que avança comigo rumo à morte, e na qual me reconheço, o choque que caracteriza o encontro com o outro, está lá insofismável. É claro: tal confissão existencial é obstáculo sério a todo humanismo honesto. Nem todos os homens são como eu, (portanto não são iguais), e nem tudo aquilo que é como eu é homem. Argumentos razoáveis engajados em humanismo podem provar que tal confissão está enganada e é pecaminosa. Serão argumentos fortes, e estaremos todos simpatizando com eles, mas tenderão a tornar a própria razão um tanto duvidosa.

Um dos argumentos razoáveis possíveis é este: os homens não “deveriam” viver em massas, mas em grupos pequenos como são clãs, aldeias ou gangues. Em tais grupos se reconhecem mutuamente. São as massas que são o problema. As ciências antropológicas não “devem” manipular homens, mas massas, a fim de permitir que sejam os seus componentes reconhecidos como homens. Mas, curiosamente, tal argumento se aplica igualmente a livros. Se a razão da presente manipulação desumana de homens por homens é a explosão demográfica dos homens, há igual explosão demográfica de livros. A turba barata dos “paper-backs”, rapidamente manipuláveis, carregáveis em bolsos, e jogáveis no lixo, torna o livro coisa de massa. (Como no caso dos homens.) E há as pequenas aldeias e gangues de livros, os clãs que recobrem as paredes da minha biblioteca, e nos quais me reconheço. “Deveria” haver ciência bibliológica a ajudar-me a reconhecer-me em livros, e a qual manipula a massa, portanto não livros mas livrarias?

Há outro argumento razoável, oposto ao primeiro. Livros são coisas específicas, a saber meios pelos quais alguns homens se comunicam com outros. Por isto, (por algum engano existencial), alguns creem que se reconhecem em livros, quando na realidade se reconhecem em seus autores. E enquanto meios de comunicação os livros estão em crise. Há meios mais apropriados atualmente, por exemplo os canais de massa. Destarte estaríamos superando livros, (como já superamos a lenda falada e cantada), prova que livros são coisas ultrapassáveis, como o são todas as coisas no mundo. A explosão demográfica atual dos livros seria prova da sua eliminação iminente. Mas, curiosamente, tal argumento se aplica igualmente aos homens. Podemos considerá-los meios pelos quais o Autor se comunica comigo. Por isto, (por algum engano existencial), alguns creem que se reconhecem em alguns homens, quando na realidade se reconhecem no Autor desses homens. (Tal argumento não é alheio às religiões do Ocidente. Afirma que o amor aos homens é meio do amor a Deus.) E, enquanto meios de comunicação, os homens estariam atualmente em crise. Há meios mais apropriados, por exemplo, computadores. Destarte estaríamos superando homens, (como estamos superando livros), prova que homens não passam de coisas. (Tal argumento não é alheio a uma espécie de darwinismo.) A explosão demográfica humana atual seria prova de sua eliminação iminente. Que significa isto?

Que se me reconheço em algum fenômeno, (seja ele homem, ou livro ou não importa que), tal fenômeno é meu outro, e que não pode haver reconhecimento enganado. Que, para haver reconhecimento, não há necessidade de postulação de autor suposto. De fato, se encontro o autor de um livro no qual me reconheci, posso não reconhecer nele o autor do livro, e muito menos reconhecer-me nele. E se acaso encontrar o Autor dos homens, posso não reconhecer-me n’Ele, e posso não reconhecê-Lo. Talvez por ser Ele, não meu Outro, mas Algo inteiramente diferente. A razão disto é esta: “habent fata homines” e “habent fata libelli’. É claro que além disto têm autores, mas podem ser autônomos de tais autores.

Que digo quando afirmo de determinada coisa que tem autor? Há duas respostas a esta pergunta. A genética, (histórica), diz que é demonstrável que tal coisa foi feita por alguém, (ou algo), e que isto é a “causa” de tal coisa. A estrutural, (formal), diz que é demonstrável na própria coisa uma intenção que atesta ter ela autor. Se optar pela primeira resposta, é óbvio que tanto homens quanto livros têm autores. (Não pode haver coisa sem causa, prova que tanto homens quanto livros são coisas.) Mas se optar pela segunda resposta, a evidência dos autores é menos forte. Porque a autonomia de homens e livros aparece. É verdade que posso constatar intencionalidade em homens e livros, que eles apontam algo, significam algo. Mas será difícil sustentar que tal intencionalidade é igual à posta lá pelos autores. Nos homens a informação genética contida no germe, por exemplo, pode ser considerada como posta lá por um autor, e efetivamente condiciona seu portador a padrões determinados. Mas tal condicionamento tem parâmetro amplo, e será o próprio portador que dará significado a tal mensagem. E pode ser dito seu próprio autor neste sentido. E algo semelhante pode ser afirmado com respeito a livros, (sem antropomorfizá-los). As páginas de um livro contêm informação posta lá por um autor, mas é informação “aberta”, razão porque um livro pode ter significado diferente daquele intendido pelo autor. É que homens e livros são parcialmente autônomos de seus autores, e é isto que os antigos pretendiam ao dizer “habent fata”. E como eu também “habeo fatum”, reconheço-me neles. São meus outros.

Homens, livros, (e mais alguns fenômenos), podem ser considerados cifras. São legíveis, (decifráveis). São enigmas. É isto o significado de “reconhecimento”: a descoberta que um dado fenômeno é enigma. O mundo das coisas, o “objetivo”, não contém enigmas, mas problemas. A diferença é esta: se resolvo problema, nada resta, se resolvo enigma, resta seu significado. Não há significado no fundo do mundo objetivo. Isto explica a tentativa repetida de considerar o mundo “livro”, e tentar lê-lo. Porque é difícil aceitar que o mundo objetivo não tem significado. O “mundo enquanto livro”, este conceito islâmico, e renascentista, e talvez até setecentista, que faz com que cientistas e outros procurem por um significado escondido nas coisas, (a matemática, ou qualquer outra mensagem de não importa que Autor), é conceito insustentável. Porque mais cedo ou mais tarde pode ser demonstrado que o significado descoberto foi posto lá pelos seus próprios descobridores. É esta a razão porque é impossível o reconhecimento nas coisas, no mundo objetivo: por ser ele opaco a não importa que significado.

Parece pois que homens e livros, (e alguns outros fenômenos), têm isto em comum: podem ser considerados tanto coisas, (partes do mundo objetivo) quanto meus outros, (sujeitos nos quais me reconheço). Mas há, por certo, diferença fundamental entre homens e livros, não obstante. (Portanto há esperança para um humanismo honesto). O clima da biblioteca, com o qual o presente ensaio começa, o prova. A diferença é esta: para considerar homens enquanto coisas, é preciso virá-los e contemplá-los pelas costas. E para considerar livros enquanto outros, é preciso virá-los e abri-los. Os homens estão abertos e devem ser fechados para poderem ser manipulados. Os livros estão fechados e devem ser manipulados para serem abertos. O ideal de muita utopia é manipular a humanidade de forma que se torne biblioteca com todas as aberturas viradas contra a parede, e todas as costas viradas para o possuidor da biblioteca. Em tais utopias os homens passam a ser decoração de parede. Todos os enigmas do mundo terão sido superados, (sem serem resolvidos), e será possível o retorno à inocência analfabética, (que é o paraíso).

Reconsideremos a biblioteca com seu clima de segurança face a um perigo latente, com seu clima do estar-abrigado. Quem está em sua biblioteca e contempla as paredes recobertas de livros está vivenciando a utopia, a plenitude dos tempos. Os livros, (e os homens), não exigem mais serem decifrados, julgados, condenados, e queimados. Passaram a decoração de parede. Mas tal situação tem preço. É este: doravante não me reconheço em nada, sou só totalmente. Se quero romper tal solidão, devo escolher um livro qualquer, tirá-lo da estante, e abri-lo. Mas com isto a história recomeçará, com todos os seus perigos. E se acaso vir a reconhecer-me em tal livro, ressurgirá a pergunta: “que é um livro?”. E não haverá resposta.

Vilém Flusser (1920–1991) nasceu em Praga, numa família de intelectuais judeus. Em 1940 emigrou para o Brasil, onde viveu por 32 anos e em cuja língua produziu algumas de suas mais importantes obras, trabalhando como jornalista, ministrando cursos e palestras e atuando como professor de filosofia. É considerado um dos mais importantes pensadores da tecnologia e da comunicação do século XX, com obras traduzidas para diversos idiomas.

[Transcrição apenas para fins de divulgação do arquivo disponível no site FlusserBrasil, atualizando a grafia e corrigindo evidentes erros de digitação.]

Nasci em 1985, vivo em Porto Alegre.

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