Trad. Nilton Ribeiro, ed. Danúbio, 2018

Tais pensadores naturalmente consideram que os valores morais são intrínsecos e supremos; e já que estes valores morais não surgiriam senão diante da existência ou iminência de males físicos, eles abraçam o paradoxo de que sem o mal não seria possível imaginar nenhum bem.

As duras exigências da apologética sem dúvida contribuíram para colocá-los nesta posição, da qual o ar da primavera ou a visão de uma criatura bem formada seria o bastante para desalojá-los. O seu temperamento ético e os grilhões da sua imaginação os impedem de reconsiderar a sua suposição original e de compreender que a moral é…


Publicado na Amálgama, em 02 de abril de 2021

Parte da coleção “Livros Sagrados do Oriente”, uma das leituras dos Glass.

“Um cordão de isolamento formado por estantes que iam até a altura da cintura cercava três das paredes, com prateleiras lotadas e literalmente encurvadas com o peso dos livros — livros infantis, livros acadêmicos, livros usados, livros de Clube de Leitura, mais o acúmulo ainda mais heterogêneo que escapava de ‘anexos’ menos comunitários do apartamento. (Drácula agora estava ao lado de Páli para principiantes, The Boy Allies at the Somme estava ao lado de Bolts of Melody, The Scarab Murder Case e O Idiota estavam juntos, Nancy Drew and the Hidden Staircase estava por cima de Temor e Tremor.)” (Franny…


Trad. Marcos Santarrita, ed. Objetiva, 2010

O “Valor Estético” é às vezes visto mais como uma sugestão de Immanuel Kant do que uma realidade, mas não tem sido essa a minha experiência em toda uma vida de leitura. (pág. 11)

Eu me sinto muito sozinho hoje defendendo a autonomia do estético, mas sua melhor defesa é a experiência de ler Rei Lear e depois ver a peça bem interpretada. Rei Lear não deriva de uma crise na filosofia, e tampouco pode a sua força ser explicada como uma mistificação de algum modo promovida por instituições burguesas. É um sinal de degeneração do estudo literário o fato…


Publicado na Amálgama, em 07/02/2021

Sem alarde e com tímida divulgação, o mercado editorial brasileiro recebe pela segunda vez uma obra de Dag Solstad (nascido em 1941), considerado um dos mais notáveis ficcionistas noruegueses da atualidade: Pudor e Dignidade (“Genanse og verdighet”, editora Numa, tradução direto do norueguês por Grete Skevik), publicado originalmente em 1994. …


da vida e sua “lógica peculiar”

Woody Allen em cena de “Memórias”

É do filme Memórias (“Stardust Memories”, 1980) que nos vem a recordação de uma das mais adoráveis e inspiradoras cenas que já vimos, quando o protagonista, um famoso diretor de cinema interpretado pelo próprio Woody Allen, procura relembrar algum momento especialmente feliz da sua vida. Confrontando a perspectiva da morte, buscando algo a que se agarrar para daí retirar forças, relembra um domingo de primavera em que, após voltar de uma caminhada no parque com Dorrie (Charlotte Rampling) e colocar uma música de Louis Armstrong para tocar (Stardust), sente um bem-estar inigualável em apenas ficar de bobeira no apartamento, sem…


Top 4

O ano da peste. O ano dos cinemas fechados. O ano em que mais assisti filmes (velhos) na minha vida, porém em que menos vezes fui ao cinema — uma contradição atroz, para quem considera que o ritual da sala de cinema pode ser tão importante quanto o filme em si. Lamentações evasivas de quem assistiu apenas oito lançamentos e oferece esta escassa lista de preferidos:

1º) Uma Vida Oculta (Terrence Malick)

Malick volta a pisar em chão mais firme, ao mesmo tempo em que nos leva para alturas alpinas — e além. Terra e Céu conjugam-se numa grande história…


Transcrição do ensaio disponível no site FlusserBrasil

Vilém Flusser lecionando

Estar em sua biblioteca e contemplar as paredes recobertas de livros (não procurando determinado livro, mas contemplando), é como olhar um lago calmo e bem conhecido nosso, mas o qual esconde, não obstante, perigos ignorados. É sensação boa, porque transmite segurança à beira do perigo. É por isto que a biblioteca é, de todos os quartos da casa, o que dá mais abrigo. Lá está-se inteiramente só, e inteiramente cercado por outros não obstante. Inteiramente só, porque protegido pelas costas dos livros dos ruídos e das visões do mundo. E completamente cercado por outros, porque os livros podem ser facilmente…


Trad. Julia da Rosa Simões, ed. L&PM, 2020

“Sentimos muito bem que nossa sabedoria começa onde a do autor acaba e gostaríamos que ele nos desse respostas, quando tudo o que pode fazer é nos dar desejos. E ele só pode despertar esses desejos em nós fazendo-nos contemplar a beleza suprema que o derradeiro esforço de sua arte permitiu-lhe alcançar. Mas por uma lei singular e aliás providencial da ótica dos espíritos (lei que talvez signifique que não podemos receber a verdade de ninguém e que devemos criá-la nós mesmos), aquilo que é o término de sua sabedoria parece-nos apenas o começo da nossa, de modo que é…


Do espírito romântico como expressão autêntica, mas nunca plenamente realizável

Mia (Emma Stone), Sebastian (Ryan Gosling) e Los Angeles: o esplendor de entrar em cena, a frustração de sair de cena.

De repente, em pleno domingo no parque, a Senhorita Brill dá-se conta, entusiasmada, de que todas aquelas pessoas — inclusive ela mesma — estavam atuando numa inconsciente peça teatral. “Ah, como era fascinante!” — reflete a personagem do conto de Katherine Mansfield [1] — “Como ela gostava daquilo! Como amava sentar ali e assistir a tudo! Era como uma peça de teatro! Era exatamente como uma peça de teatro. Quem não acreditaria que o céu, ao fundo, não era pintado?”. Estavam todos num invisível palco, e era isso o que tornava tudo tão emocionante aos olhos da Srta. Brill:

“A…


Publicado no Estado da Arte em 22 de agosto de 2020

Foto de Devin Yalkin para The New Yorker

“O desejo do homem sendo Infinito, a posse é Infinita e ele mesmo Infinito” (William Blake)

Depois de explorar as ruas, as noites, os condomínios, os trens, os cheiros e as temperaturas de Nova York nos seus cinco primeiros longas — Fuga para Odessa (1994), Caminho sem volta (2000), Os donos da noite (2007), Amantes (2008) e Era uma vez em Nova York (2013) — , James Gray se afasta de casa, se afasta muito, nos seus dois filmes mais recentes: transita entre a Inglaterra do início do século XX e a selva amazônica em Z: A Cidade Perdida (2016)…

Lucas Petry Bender

Nasci em 1985, vivo em Porto Alegre.

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